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Urban transformation as a process                 Cidade Adaptável                 Energia Cidade


Síntese das conferências do Fórum das Cidades e dos Júris, Oslo, 4/5.11.2011 sobre o tema “A cidade adaptável”





Luc GWIAZDZINSKI,

Geógrafo urbanista, Grenoble (FR)

A CIDADE MALEÁVEL

Mudando a maneira como vemos a cidade: uma visão através do tempo e do espaço
O tempo é uma dimensão importante, mas pouco abordada no planeamento e no desenho urbano. Embora os estilos de vida tenham mudado, a construção da cidade não acompanhou estas novas formas do quotidiano da cidade. Em vez desta óptica estática e fixa, é necessária uma nova abordagem sistemática e multi-escalar sobre a cidade: como um sistema de fluxos, como algo em constante movimento, em transformação ao longo do tempo.

Olhar para cidade do ponto de vista temporal implica analisar novas características, como: a extensão da cidade no espaço e no tempo, a fragmentação da cidade e tempo, a urgência de um tempo real e a evolução das mobilidades. Os próprios indivíduos têm cada vez mais características híbridas: são mais móveis, “poli-topicos”, poli-activos, mais instáveis e imprevisíveis no seu percurso de vida pessoal.

 

 


O objectivo da cidade maleável
é responder a estas novas necessidades utilizando a “chave” do tempo – através de propostas para espaços versáteis, actividades rotativas e outros aspectos de hibridização. Alguns exemplos existentes mostram algumas possibilidades:
- As margens do Sena transformam-se numa praia no Verão;
- Uma praça que se converte em ringue de patinagem no Inverno;
- Uma faixa para autocarros que se serve de estacionamento à noite…

A cidade maleável permite o uso alternativo, versátil e polivalente, do espaço público e de edifícios em diferentes escalas temporais - ano, estação, dia – e escalas espaciais – casa, bairro, rua, conurbação. Também contribui para o aparecimento de uma nova identidade urbana, flexível segundo os tempos, os espaços, os indivíduos e os grupos. Governada de uma forma colectiva, necessita de formas de gerir fronteiras espaciais e temporais dos novos espaços e usos partilhados.
A cidade maleável é uma nova maneira de habitar o espaço e também de habitar o tempo.



Liza FIOR,

Arquitecta, muf architecture/art, Londres (UK)

ESPAÇOS PÚBLICOS SOBRE O PRISMA DO TEMPO
Com esta maneira de trabalhar, elaboram-se estratégias urbanas que aliam interesses públicos e privados, com vista a desenvolver o potencial económico e social para usos múltiplos do espaço público. A oportunidade de entrar nos processos de diálogo e de decisão, permite trabalhar as possibilidades de significado e de evolução dos usos.

Mapear o que já existe e o tempo como meio de projecto
_ “Fazer Espaço” em Dalston, Londres
Parque e Zona comunitária, construído a partir de espaços abertos desocupados



Projecto de ocupação temporária de uma praça


A zona de Dalston em Londres (um das mais pobres da cidade) está a acolher grandes investimentos em habitação, que não levam em conta as características locais.
A nova estratégia urbana, tem como primeira acção mapear os valores existentes (tecido urbano, sectores de voluntariado, comércio, serviços, cultura) e relaciona-los com o espaço público, encontrando novos espaços de oportunidades. A partir daqui, realizam-se 12 projectos de baixo orçamento e com duração limitada, com uma estrutura de gestão enraizada na comunidade. Pretende-se que os projectos introduzam novos usos, melhorando a qualidade do espaço público do bairro, com novos benefícios para os investidores e para a população.

 


Ajustar ao possível e identificar o que está em falta

_ Barking Town Square, Barking, Londres
A chegada da linha de metro, tornou esta parte da cidade num ponto atractivo de intenso desenvolvimento, que foi deixando espaços abertos e indefinidos.
O projecto desta praça, pretende criar um novo espaço público central, de acesso ao Town Hall e à nova biblioteca, num espaço pouco atractivo e em transformação.
No decurso do processo de desenho, foram-se desenvolvendo pequenos eventos e projecto parciais (pequeno palco, um banco pintado de cor-de-rosa, encomenda de materiais locais, criação de uma “nova ruína”) que permitiram ganhar a confiança da comunidade, trazer novos usos à praça e definir elementos ao longo do tempo. De forma similar foi possível trabalhar com os responsáveis dos edifícios circundantes para melhorar acessos e articular o espaço público com a envolvente. Numa fase final, introduz-se no espaço central um arboretum que para além de temperar o clima, permite diversidades no uso e algum “mistério” na ambiência.


Planta e alçado do espaço publico central



Espaço do Arboretum

 



Vesta Nele ZAREH,

Arquitecta investigadora, LIA (Laboratory for Integrative Architecture), Berlin (DE)
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Espaços temporários e adaptáveis
A cidade adaptável é um dos temas de trabalho do LIA, que desenvolve projectos de investigação com estratégias para a adaptabilidade das estruturas construídas e conjuntos urbanos, num contexto “pós-Quioto” e da necessidade de tornar a cidade mais resiliente.

O projecto TEMPO produz um estudo de estruturas/edifícios temporários, de fácil montagem e desmontagem, com poucos materiais, que podem ocupar um local sem o alterar permanentemente. Este conceito permite também inventariar os espaços livres ou obsoletos na cidade de Berlim e analisar pequenos projectos com potencial de “activação” destas zonas.


Instalação urbana efémera | Habitações temporárias

Outro projecto trata da análise de zonas industriais em obsolescência na cidade de Saint Etienne em França, na perspectiva de as reintegrar na cidade. Produziu-se um Atlas dos edifícios com análises internas, localização geográfica e relações entre estes, organizando-os por tipologias e possibilidades de intervenção. Pretende-se desenvolver a ideia de como intervir nestes espaços abandonados, para os transformar em pontos centrais com sinergias que se possam estender aos bairros envolventes.

Saint-Etienne, tipologias de edifícios industriais

 

 


Intensificação da cidade existente

Outro projecto “Grand Paris, Soft Metropolis” avança uma visão para a conurbação de Paris com o horizonte 2030, redesenhando o tecido existente num modelo de cidade multipolar, com 3 estratégias principais:
- Contrastar uma versão densa e intensa da cidade, com outra versão mais dispersa. Através de intensificação e diversificação de áreas mono-funcionais dispersas no território, com novas tipologias de uso: pequenos centros urbanos, espaços polifuncionais, espaços temporários, etc.;
- Mobilidade variada: manter a mobilidade individual e permitir fácil acesso local em zonas densas urbanas, através de sistemas inovadores de macro e micro mobilidade;
- Elementos naturais como foco de transformação, revitalizando as margens e leitos de rio, numa paisagem multifuncional, misturando funções ecológicas, sociais e urbanas.



Vista Aérea do projecto Grand Paris Métropole Douce:


Intensificação: Revitalizar a cidade densa


Sebastià JORNET,

Arquitecto, urbanista, Barcelona (ES)

RESILIÊNCIA DE ZONAS SEGREGADAS

A regeneração urbana do Bairro de la Mina em Barcelona
O Barrio de la Mina foi construído nos anos 70 num modelo “instantâneo”, segregado da cidade existente e sem diversidade tipológica e urbana, e onde se desenvolveram várias situações de marginalidade e desqualificação. Com o plano de regeneração urbana, pretende-se contribuir para que o bairro se torne em apenas mais um da cidade, com os mesmos direitos urbanos e qualidades e aberto a todas as pessoas.

No processo de desenho do plano, efectuaram-se várias análises prévias sobre a situação social e antropológica, estado de conservação dos edifícios, condições urbanas, de forma a identificar os conflitos e problemas existentes. Conclui-se que o bairro tem hoje uma localização mais central, com edifícios e densidades similares a outras zonas da cidade, em que os problemas estão relacionados com determinados focos de marginalidade, falta de qualidade no espaço público, de diversidade urbana e pontos de interacção com outras zonas da cidade.

O plano é definido a partir de princípios estruturantes:
- Centralidade: espaços centrais promovem a identidade da cidade;
- Diversidade: maior riqueza de espaços, arquitectura, tipologias e actividades económicas;
- Comunicação: com o resto da cidade através do transporte, da estrutura urbana e de equipamentos.

Estes princípios configuram-se no redesenho do espaço público e das novas edificações, partindo da ideia de abrir o bairro para voltar a articular as partes. Uma nova rambla central liga pontos importantes do bairro e da cidade, conectando-o com a envolvente e cria novas centralidades e potencialidades. Novos equipamentos são utilizados como estruturas marcantes e a introdução de novas tipologias e configuração arquitectónicas variadas introduz diversidades nas utilizações.


Depois da regeneração a Mina, torna-se num normal bairro da cidade
 

Maquete do plano de regeneração da Mina






A Rambla conecta o bairro com a envolvente



Helmut RESCH,

Arquitecto, director de planeamento da cidade de Selb (DE)

DECRESCER PARA DESENVOLVER MELHOR

Selb é uma cidade alemã no nordeste da Bavaria, um centro industrial de fabrico de porcelana que entrou declínio nos anos 90, com o desemprego e perca de população a configurar-se num “esvaziamento” da cidade.

Em 2003, foi introduzido um novo programa de desenvolvimento urbano, em que todos os aspectos - económico, social, habitação – foram conjugados num plano integrado, com a participação dos cidadãos. A estratégia usada para reverter o “atrofiamento” da cidade passa por envolver a comunidade e actores-chave comprometidos com o projecto, incorporar intervenientes dos sectores privado e público e tornar os projectos visíveis, entendidos e participados.

Para as zonas deprimidas seleccionaram-se as áreas a transformar, demolindo as estruturas em más condições e intervindo noutros pontos mais centrais. Foram desenvolvidos concursos para a reutilização de estruturas industriais abandonadas, explorando novas ideias, dinâmicas, potenciais negócios. Na área da habitação, deslocaram-se pessoas para zonas mais qualificadas, promovendo-se a modernização de edifícios, tendo em conta uma população mais idosa.
Nas zonas centrais da cidade, apostou-se na requalificação destas zonas, com projectos de equipamentos, habitação, espaços públicos, que pretendem reforçar a ideia de comunidade.


Novas intervenções urbanas e intensificação de centros de bairro (vermelho)


 

Intervenções no espaço público







Reestruturação do centro da cidade, projecto de habitação social (Gutiérrez-De La Fuente arquitecto. ES)


Michel SIKORSKI,

Arquitecto, XDGA Brussels (BE)

TEMPORALIDADES DO PROJECTO URBANO
O cluster de Saclay no sudoeste de Paris, tem como objectivo criar um “Silicon Valley” francês - uma concentração de universidades, centros de investigação, negócios, habitação e serviços - ancorado na construção de nova linha de metro. Actualmente, o planalto de Saclay, é uma zona agrícola e florestal, com pouca população e ocupação urbanas, com excepção de alguns centros de investigação importantes que se pretende desenvolver.

O projecto de planeamento e desenho urbano contempla várias escalas de abordagem com diferentes estratégias e níveis de desenho:
- Na escala da paisagem, o perímetro florestal e os elementos naturais do planalto configuram a moldura da intervenção, conjugando o reforço da densidade existente, novas linhas de infra-estrutura e a manutenção dos usos agrícolas;
- No desenho da estrutura urbana, propõem-se estabelecer 3 conjuntos urbanos em torno de equipamentos universitários importantes e das correspondentes estações de metro. Em cada uma das partes um desenho em grelha integra a urbanização já existente, e permite a densificação progressiva, com uma mistura de edifícios e vegetação, produzindo um ambiente construído híbrido. Um espaço público linear, articula os vários conjuntos promovendo uma rede de espaços públicos com tipologias e usos variados;
- Na escala do campus universitário, propõe-se um programa misto de usos universitários e tecnológicos, e outros usos como habitação, serviços e comércios, necessários para “fazer cidade”. A máxima densidade está localizada em torno das estações de metro e dos elementos centrais do bairro, com distâncias acessíveis a pé.

 

A proposta define vários conjuntos com intensos centros em torno de estações de metro



Um boulevard central liga os três conjuntos e constitui uma estrutura de espaços públicos